Todo mês de abril eu recebo a mesma mensagem, em variações diferentes: "Victor, minha declaração caiu na malha fina" ou "minha restituição não veio, o que eu fiz de errado?". E quase sempre, quando reviso com calma, o problema não é sonegação nem má-fé, é falta de organização somada a um punhado de erros que se repetem ano após ano. Não sou contador e não preencho a declaração de ninguém, mas ajudo meus clientes a chegar em abril com a vida financeira organizada, e isso evita a maioria dos problemas que vejo. Estes são os cinco erros mais comuns.
Erro 1: escolher entre completa e simplificada no chute
Muita gente marca "simplificada" porque é mais rápido, ou "completa" porque "sempre foi assim", sem nunca ter comparado os dois resultados. A diferença pode ser de milhares de reais na restituição, para mais ou para menos, dependendo de quanto você tem em despesas dedutíveis, como saúde, educação, previdência privada e dependentes.
A regra é simples: quem tem poucas deduções costuma sair ganhando no desconto simplificado de 20%. Quem tem plano de saúde de família, filhos na escola particular ou faz aporte em PGBL, quase sempre sai melhor na completa. O problema é que os programas de declaração fazem essa conta por você, mas só se você já tiver lançado tudo. Deixar de organizar os comprovantes o ano inteiro é abrir mão dessa comparação sem nem saber que ela existia.
Erro 2: esquecer bens e investimentos no exterior
Com mais gente investindo fora, esse erro virou comum demais. Conta em corretora americana, ETF listado lá fora, criptoativo guardado em exchange internacional: tudo isso precisa aparecer na ficha de bens, mesmo quando não gerou rendimento nenhum no ano. Já escrevi sobre como estruturar esse tipo de investimento morando no Brasil, e o ponto que mais gente ignora é justamente esse: o dever de declarar existe independentemente do resultado. Esquecer não é sonegar de propósito, mas para a Receita a diferença nem sempre importa, e a correção depois costuma dar mais trabalho do que declarar certo da primeira vez.
Erro 3: dedução de saúde e educação sem comprovante guardado
Gasto com plano de saúde, consulta particular, faculdade dos filhos: tudo isso reduz a base de cálculo do imposto, mas só se você tiver o CPF do prestador, o valor exato e, cada vez mais, a nota fiscal correspondente. Já vi cliente perder alguns milhares de reais de restituição porque lançou "de memória" um valor de plano de saúde que não batia com o informe enviado pela operadora à Receita. Deu diferença, caiu em malha, e o dinheiro que devolveria ficou retido por meses.
O hábito que resolve isso é chato, mas simples: uma pasta, física ou digital, onde você joga cada recibo médico e escolar assim que recebe, o ano inteiro, não só em março. Se você não sabe exatamente quanto está deixando de abater hoje, o simulador de dedução de IR mostra em 2 minutos, com dependentes, saúde, educação e PGBL, o tamanho do abatimento que você pode estar perdendo.
Erro 4: dependente errado, duplicado ou fora da regra
Casais separados que ainda declaram o mesmo filho como dependente, os dois, no mesmo ano. Pais que colocam filho maior de 24 anos sem ele estar em curso superior ou técnico reconhecido. Avós que tentam declarar neto sem cumprir os requisitos de guarda. Todos esses casos caem em malha quase certeiro, porque o CPF do dependente é cruzado automaticamente entre as declarações. Antes de lançar um dependente, vale a pena confirmar com a outra parte, quando existe, quem vai declará-lo naquele ano, e checar se ele realmente se enquadra na regra específica da faixa etária ou situação.
Erro 5: pró-labore e PJ declarados sem cuidado
Quem presta serviço via PJ e também tem uma consultoria financeira comigo costuma perguntar isso: preciso declarar o quê, exatamente, além do meu pró-labore? A resposta muda com a estrutura da empresa, mas o erro mais comum que vejo é simples: misturar o que é rendimento pessoal com o que ficou retido dentro da pessoa jurídica, e declarar tudo junto, ou pior, não declarar a participação societária na ficha de bens. Se você estruturou uma PJ recentemente ou está pensando nisso, vale revisar com o contador da empresa e, do lado do planejamento pessoal, entender como esse rendimento entra na sua vida financeira como um todo dentro do Planejamento Financeiro.
Declaração de IR não é um evento de abril. É o resultado de como você organizou a vida financeira nos outros onze meses.
O que evita a maior parte desses problemas
Reparem que nenhum dos cinco erros é sobre esperteza ou sonegação, são sobre organização que falta ao longo do ano. Guardar comprovante, saber o que você tem investido e onde, entender a própria estrutura de renda: isso não é trabalho de março, é rotina. No meu trabalho de planejamento financeiro, parte do que fazemos é justamente montar essa organização junto com o cliente, para que a declaração vire só um formulário a preencher, não um quebra-cabeça. Se você quer ver rapidamente onde a sua vida financeira está desorganizada, o Diagnóstico de Saúde Financeira é gratuito e leva 2 minutos.
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