Coloque R$ 100 mil numa carteira que rende 8% ao ano antes das taxas e deixe por 30 anos. Se a taxa de administração for de 0,3% ao ano, como a de um ETF de índice, você termina com cerca de R$ 926 mil. Se for de 2%, como a de muitos fundos de ações vendidos na agência, termina com R$ 574 mil. A carteira é a mesma, o mercado é o mesmo, e a diferença de R$ 351 mil saiu toda em taxa. Essa é a conta que quase nunca aparece na mesa do gerente.
A conta, em uma imagem
A taxa de administração é cobrada todo ano, sobre o patrimônio inteiro, ganhando ou perdendo. Por isso ela não se comporta como um custo fixo: ela cresce junto com o seu dinheiro e, por juros compostos, come uma fatia cada vez maior do resultado.
R$ 100 mil por 30 anos: a mesma carteira, taxas diferentes
Em reais. Rendimento bruto de 8% ao ano nos dois casos; muda só a taxa de administração
Ver os números
| Ano | Taxa de 0,3% | Taxa de 2% | Diferença |
|---|---|---|---|
| 0 | R$ 100.000 | R$ 100.000 | R$ 0 |
| 5 | R$ 144.903 | R$ 133.823 | R$ 11.081 |
| 10 | R$ 209.970 | R$ 179.085 | R$ 30.885 |
| 15 | R$ 304.253 | R$ 239.656 | R$ 64.598 |
| 20 | R$ 440.874 | R$ 320.714 | R$ 120.160 |
| 25 | R$ 638.841 | R$ 429.187 | R$ 209.654 |
| 30 | R$ 925.702 | R$ 574.349 | R$ 351.353 |
Simulação ZMANN: rendimento bruto constante de 8% ao ano, taxa descontada anualmente, sem taxa de performance, come-cotas ou IR. Ilustrativo, não é promessa de rentabilidade.
Em 10 anos, a diferença é de cerca de R$ 31 mil. Em 20, passa de R$ 120 mil. Em 30, o fundo caro entrega 38% menos do que a mesma carteira com taxa baixa. Ninguém tirou esse dinheiro de você de uma vez, e é exatamente por isso que pouca gente percebe.
"Mas o gestor não pode render mais que o índice?"
Pode, e é essa a promessa do fundo ativo: o gestor escolhe ações e tenta bater o índice. O problema é que ele precisa bater o índice pelo tamanho da taxa todos os anos, só para empatar com o ETF. Com 2% de administração contra 0,3%, são 1,7 ponto percentual de vantagem que ele precisa entregar, ano após ano, antes de começar a ganhar de verdade para você.
Na prática, poucos conseguem com consistência. O relatório SPIVA da S&P Dow Jones Indices, que acompanha os fundos brasileiros há mais de uma década, mostra que, no horizonte de 10 anos, a maioria dos fundos de ações do Brasil ficou atrás do índice de referência. Existem bons gestores, e alguns batem o mercado por longos períodos. Mas escolher hoje quem vai ser um deles daqui a 20 anos é uma aposta muito mais difícil do que parece.
Já escrevi sobre os critérios para escolher um ETF em ETF: o que é e como escolher. Aqui o ponto é outro: comparar o que você paga hoje com o que poderia pagar.
O imposto que sai antes da hora: come-cotas
Além da taxa, há uma diferença tributária que pouca gente conhece. Fundos de renda fixa e multimercado têm o come-cotas: duas vezes por ano, no último dia útil de maio e de novembro, o Imposto de Renda é antecipado e cobrado direto do seu saldo, com alíquota de 15% nos fundos de longo prazo e 20% nos de curto prazo. As regras estão na Lei 14.754/2023.
Você não paga mais imposto no total por causa disso, mas paga antes, e o dinheiro que saiu deixa de render para você nos anos seguintes. Fundos de ações não têm come-cotas, e os ETFs de renda variável da B3 também não: o IR de 15% sobre o ganho só é pago quando você vende. Quer ver o efeito com os seus números? O Simulador de ETF compara as duas situações.
Você não controla quanto o mercado vai render. Controla quanto paga de taxa. É o único retorno garantido que existe.
Quando o fundo ainda faz sentido
Não sou contra fundo. Sou contra pagar caro por algo que um ETF entrega mais barato. Há casos em que o fundo é a melhor ferramenta:
- Reserva de emergência. Um fundo DI com taxa zero e liquidez diária resolve bem, como expliquei no artigo sobre reserva de emergência.
- Classes sem índice bom. Em parte do crédito privado, por exemplo, a seleção do gestor faz diferença e não há ETF equivalente.
- Estratégias específicas que você entende e que justificam a taxa, com histórico longo e transparente.
- Previdência. PGBL e VGBL são fundos por dentro. Aqui a escolha é do plano certo e barato, e dá para trocar por portabilidade sem pagar IR, como contei em PGBL ou VGBL.
Como sair de um fundo caro sem se arrepender
- Leia a lâmina e o regulamento. Todo fundo oferecido ao público tem documentos com as taxas, exigidos pela Resolução CVM 175/2022. Anote a taxa de administração, a de performance e o índice de referência.
- Compare com o ETF equivalente. Mesmo índice, mesmo tipo de ativo. A diferença de taxa é a sua economia anual.
- Faça a conta do imposto. O resgate pode gerar IR sobre o ganho acumulado. Em prazos longos, a taxa menor costuma compensar com folga, mas vale ver o número antes.
- Confira o prazo de resgate. Alguns fundos levam 30 dias ou mais para pagar. Planeje a troca para não ficar com o dinheiro parado.
Esse tipo de revisão é parte do que faço na consultoria em investimentos: olhar a carteira inteira, o custo de cada pedaço e o caminho mais barato para chegar ao mesmo lugar. Se a carteira tem uma parte no exterior, vale ler também investir no exterior morando no Brasil.
Quer saber quanto a sua carteira paga de taxa?
Na conversa de 45 minutos eu levanto o custo de cada fundo que você tem e mostro, com números, quanto isso representa em 10, 20 e 30 anos. Gratuita, online ou na Av. Paulista, sem venda de produto.
Perguntas frequentes
ETF é sempre melhor que fundo de investimento?
Não sempre. Para ter exposição ampla a um mercado, como a bolsa brasileira ou a americana, o ETF costuma vencer pelo custo. Em classes em que o índice é ruim ou inexistente, como parte do crédito privado, um fundo bem gerido e com taxa justa pode fazer sentido. A taxa precisa caber no que o gestor entrega.
Como descobrir quanto o meu fundo cobra?
Todo fundo oferecido ao público tem documentos com as taxas, como a lâmina e o regulamento, disponíveis no site do administrador e na CVM. Procure a taxa de administração, a taxa de performance e o índice de referência. Compare com um ETF que siga um índice parecido antes de decidir.
O que é come-cotas e quem paga?
É a antecipação semestral do Imposto de Renda, no último dia útil de maio e de novembro, que reduz a quantidade de cotas do investidor. Incide sobre fundos de renda fixa e multimercado, com alíquota de 15% ou 20%. Não incide sobre fundos de ações nem sobre ETFs de renda variável.
Vale resgatar o fundo caro para comprar ETF?
Muitas vezes sim, mas faça a conta antes. O resgate pode gerar IR sobre o ganho acumulado, e alguns fundos têm prazo de resgate longo. Compare o imposto que você paga hoje com a economia de taxa nos anos seguintes. Em prazos longos, a taxa menor costuma compensar com folga.
