O primeiro filho muda o orçamento antes mesmo de nascer. A renda pode cair durante a licença, o gasto fixo sobe para sempre e a família passa a ter alguém que depende de vocês por uns 20 anos. A boa notícia é que dá para planejar quase tudo nos nove meses da gestação. Quatro coisas decidem se o primeiro ano vai ser tranquilo ou apertado: a licença, o plano de saúde, a reserva e o seguro.
- Quanto dura a licença e quanto entra de dinheiro nesse período, para CLT, autônoma e MEI.
- A regra dos 30 dias do plano de saúde para o recém-nascido, e a carência do parto.
- Por que a reserva de emergência precisa crescer, com uma conta de exemplo.
- Seguro de vida, testamento e o que dá para deixar para depois.
Primeiro filho: o orçamento muda antes do parto
Quase todo casal que me procura grávido chega com uma planilha de enxoval. Berço, carrinho, cadeirinha. É compreensível, e quase sempre é a parte menos importante da conta.
O enxoval é um gasto único. O que pesa de verdade é o que vem depois e não vai embora: fralda, consulta, plano mais caro, talvez babá ou berçário. E, do outro lado, uma renda que pode ficar menor justamente nesses meses.
Planejar a chegada do primeiro filho, do ponto de vista financeiro, é preparar a casa para um gasto fixo maior e para alguns meses de renda incerta. Tudo o mais é detalhe.
A licença: quanto tempo e quanto dinheiro entra
Comece por aqui, porque é o que define o tamanho do buraco.
Quem é CLT
O salário-maternidade é pago por 120 dias e pode começar até 28 dias antes do parto, conforme o artigo 71 da Lei 8.213/1991. Para a empregada com carteira, o valor corresponde à remuneração dela, e quem paga na prática é a empresa, que depois compensa com o INSS.
Se a empresa aderiu ao programa Empresa Cidadã, da Lei 11.770/2008, a licença-maternidade pode ser prorrogada por mais 60 dias e a licença-paternidade ganha mais 15 dias. A adesão é opcional e depende da empresa. Pergunte ao RH logo no começo da gestação, porque o pedido de prorrogação tem prazo.
Quem é autônoma, PJ ou MEI
Aqui está o ponto que eu mais vejo dar problema. A autônoma que contribui para o INSS também tem direito ao salário-maternidade, mas o valor é a média das contribuições recentes, limitada ao teto da Previdência, pelo artigo 73 da mesma lei. Quem contribui como MEI, sobre o salário mínimo, recebe um salário mínimo.
Já atendi uma médica que faturava bem como PJ e descobriu no sétimo mês que receberia do INSS uma fração da renda dela. Não havia nada de errado, era a regra. O erro foi não ter feito a conta antes. Se você está nessa situação, o artigo sobre renda extra virando renda principal ajuda a entender como a PJ se encaixa no resto da vida financeira.
Para a casa, a pergunta prática é uma só: quanto vai entrar por mês durante a licença, e quanto falta para cobrir o novo custo? Esse número vai direto para a reserva.
Plano de saúde: a regra dos 30 dias
Esse é o item que mais gera susto, e ele é simples quando você conhece a lei.
Se o plano dos pais tem cobertura obstétrica, a Lei 9.656/1998, no artigo 12, garante duas coisas. O recém-nascido tem cobertura nos primeiros 30 dias após o parto. E pode ser incluído como dependente sem cumprir carência, desde que a inclusão seja pedida dentro desses 30 dias.
Perdeu o prazo, ele entra como qualquer beneficiário novo, com carência. Eu recomendo deixar a documentação pronta antes do parto e fazer a inclusão na primeira semana.
Outro ponto: a mesma lei permite carência de até 300 dias para parto a termo. Se você está pensando em trocar de plano, a hora é antes de engravidar. Trocar no meio da gestação pode deixar o parto descoberto, a menos que a troca seja por portabilidade de carências. Escrevi sobre como cotar sem perder cobertura em plano de saúde caro.
A reserva de emergência precisa crescer
Muita família tem uma reserva calculada sobre o gasto de hoje. O problema é que, com o bebê, o gasto de hoje deixa de existir.
Pense numa família que gasta R$ 10 mil por mês e tem seis meses guardados. Com o bebê, a casa passa a gastar R$ 12,5 mil. Os mesmos R$ 60 mil, que antes cobriam seis meses, agora cobrem menos de cinco. E é justamente o ano em que a renda pode cair e em que imprevistos de saúde ficam mais prováveis.
A reserva de emergência antes e depois do bebê
Em reais. Conta de exemplo: família que gasta R$ 10 mil por mês e passa a gastar R$ 12,5 mil com o bebê
Simulação ZMANN com valores hipotéticos e ilustrativos. O gasto da sua família pode ser bem diferente: refaça a conta com o seu orçamento.
Minha sugestão para o primeiro ano é ter de 9 a 12 meses do novo custo. Parece muito, e é. Mas a gestação dá um prazo raro: nove meses para juntar com antecedência. Se cada mês de gravidez virar um mês de reserva, a conta fecha perto do parto.
Onde deixar esse dinheiro também importa. Reserva é liquidez diária e risco baixo, não é lugar para buscar rentabilidade. Explico os detalhes em reserva de emergência.
O enxoval você paga uma vez. O custo fixo do filho você paga todo mês por 20 anos. Planeje o segundo, não o primeiro.
Como descobrir o novo custo da casa
Não existe tabela que sirva para todo mundo, e eu desconfio de quem promete uma. O custo depende da cidade, do plano e de quem vai cuidar do bebê depois da licença.
O que funciona é montar o orçamento por linhas:
- Saúde: o aumento do plano com o novo dependente, consultas de pediatra e vacinas fora do calendário público, se vocês optarem por elas.
- Consumo: fralda, higiene e alimentação. Peça a amigos com filhos pequenos o gasto real deles, que vale mais do que qualquer estimativa da internet.
- Cuidado: berçário, babá ou a renda que um dos dois deixa de ganhar para ficar em casa. Para muitas famílias, essa é a maior linha de todas.
- Moradia: se a casa vai precisar de mais um quarto, essa decisão muda o orçamento mais do que todo o resto junto.
Faça essa conta a dois. Em casal, o filho costuma ser o momento em que a divisão de despesas que funcionava deixa de funcionar, principalmente se um dos dois reduzir a jornada. O artigo sobre finanças do casal tem o passo a passo para essa conversa.
Seguro de vida: agora faz sentido
Eu costumo dizer que solteiro sem dependentes raramente precisa de seguro de vida. Com o primeiro filho, isso muda.
A pergunta que o seguro responde é: se um de vocês faltar, quem paga a criação dessa criança? O capital segurado precisa cobrir alguns anos do custo da casa e, se possível, a educação até a fase adulta. Dá para fazer isso com seguro temporário, que costuma ser bem mais barato do que os produtos com resgate que os bancos oferecem.
Contrate durante a gestação. Explico como calcular o valor e os pega-ratões das apólices em seguro de vida vale a pena?.
O que dá para deixar para depois
Nem tudo precisa estar resolvido no dia do parto. Algumas coisas podem esperar o primeiro ano passar:
- Investimento para a faculdade. Importante, mas começa depois que a reserva estiver de pé. Uma criança de zero ano tem 18 anos de prazo; a reserva, não.
- Educação financeira. Ensinar dinheiro ao filho começa por volta dos 3 ou 4 anos, e eu falo sobre isso em dinheiro e filhos.
- Testamento e sucessão. Vale pensar em quem seria o tutor da criança e em como o patrimônio chegaria a ela, como contei em herança sem briga. Não precisa ser antes do parto, mas não deixe para daqui a dez anos.
Um roteiro para os nove meses
- Primeiro trimestre: confirme a cobertura obstétrica do plano, pergunte ao RH sobre a licença e calcule quanto vai entrar durante ela.
- Segundo trimestre: monte o orçamento novo, linha por linha, e comece a aumentar a reserva todo mês.
- Terceiro trimestre: contrate o seguro de vida, deixe a documentação do plano pronta e defina quem vai cuidar do bebê depois da licença.
- Primeira semana de vida: inclua o bebê no plano de saúde. É o prazo mais importante de toda a lista.
Se quiser fazer esse plano com acompanhamento, é exatamente o tipo de trabalho do planejamento financeiro da ZMANN. O primeiro filho é um dos melhores momentos para organizar a vida financeira, porque a motivação está no máximo.
Bebê a caminho?
Na conversa de 45 minutos eu olho a licença, o plano de saúde, a reserva e o seguro de vocês, e mostro com números o que precisa mudar antes do parto. Gratuita, online ou na Av. Paulista, sem venda de produto.
Perguntas frequentes
Quanto tempo dura a licença-maternidade?
O salário-maternidade do INSS é pago por 120 dias, e pode começar até 28 dias antes do parto, conforme a Lei 8.213/1991. Se a empresa participa do programa Empresa Cidadã, da Lei 11.770/2008, a licença pode ser prorrogada por mais 60 dias. Confira com o RH antes, porque a adesão é da empresa.
Autônoma e MEI têm direito a salário-maternidade?
Sim, desde que contribuam para o INSS. Para a contribuinte individual, o valor é a média das últimas contribuições, limitada ao teto da Previdência. Quem paga o MEI, que contribui sobre o salário mínimo, recebe um salário mínimo. Por isso a reserva de quem trabalha por conta própria precisa ser maior.
O bebê fica coberto pelo plano de saúde dos pais?
Se o plano tem cobertura obstétrica, sim. A Lei 9.656/1998 garante cobertura ao recém-nascido nos primeiros 30 dias após o parto. Também garante o direito de incluí-lo como dependente sem carência, desde que a inclusão seja pedida nesses 30 dias. Passou do prazo, ele entra com carência normal.
De quanto deve ser a reserva de emergência com um bebê?
Eu costumo sugerir de 9 a 12 meses do novo custo da casa no primeiro ano, e não do custo antigo. O gasto sobe, a renda pode cair durante a licença e imprevistos de saúde ficam mais prováveis. Para quem é autônomo ou tem renda variável, mire no limite de cima.
